Mostrar mensagens com a etiqueta Eventos e personagens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eventos e personagens. Mostrar todas as mensagens

sábado, 8 de novembro de 2008

Campanhas de Pacificação VII

Chaimite...


Depois de arrasar o centro Vátua, António Ennes trata da consolidação da ocupação efectiva e a 15 de Dezembro de 1895 cria-se o Districto Militar de Gaza. A direcção deste é entregue a Mouzinho de Albuquerque.
A 9 de Dezembro recebe-se em Languéne informações sobre o paradeiro de Gungunhana. As informações confirmam-se no dia 13 de Dezembro quando a Languéne chegam 5 emissários de Gungunhana como prova de desejo de paz. Para tal entregam o rebelde Matibejana. Duas mulheres acompanham o régulo para o "verem morrer" pois era esperado que fosse imediatamente fuzilado. Contudo o comandante Sanches de Miranda manda-o prender.

1 - Foto de Gungunhana;

Ao tomar conhecimento, Mouzinho de Albuquerque desloca-se para Languéne, com intenção de Capturar Gungunhana e fechar na perfeição a campanha de 95.
Aposta-se na formação de uma coluna de 30 cavaleiros para surpreender o rei em fuga, mas torna-se impossível reunir o numero exacto de cavaleiros.

Mouzinho de Albuquerque sobe o Limpopo na lancha Capelo até à junção do Changane. Explora a região em redor e cria um novo posto, a uns 800 metros de um cais improvisado. Mouzinho pretende que este se torne a sede do Districto de Gaza. seria também o posto mais avançado da ocupação Portuguesa.

25 de Dezembro de 1895. Dia de Natal. Mouzinho de Albuquerque desiste de esperar pelos cavaleiros e organiza uma pequena força improvisada. As 5h do dia 26 a pequena coluna parte com 207 auxiliares e 76 carregadores e vai recolhendo auxiliares ao longo do caminho, que desejam ver o "afastamento" do antigo senhor. Nesse dia a força acampa em Zimacaze (as 16h) perto da junção do Limpopo com o Changane. Gungunhana esperava provavelmente a partida da coluna pois chegam enviados seus que entregam dentes de elefante e apresentam um pedido a Mouzinho:" Aguarde na Lancha pois o régulo vai dentro em breve prestar vassalagem aos
portugueses.















2 - Gungunhana e as suas Mulheres;

No dia seguinte Mouzinho manda soar a alvorada as 2h e 30. a coluna come uma refeição rápida. Mouzinho conta com 47 Europeus e mais ou menos 200 auxiliares e parte em marcha as 4h da manhã. As 11h chegam outros dois enviados com presentes mais significativos (560 libras e pontas de marfim). O rei está preocupado. Trazem outra mensagem. Pedem para esperar que o régulo viria nesse mesmo dia falar com "o Rei seu Pai". Responde Mouzinho que o régulo é "muito gordo" e ele "muito magro", para lhe poupar trabalho vai continuar a avançar. Depois de 9h de Marcha estão os Europeus esgotados, acampam então perto da lagoa de Motacame. Ainda nessa tarde chega uma delegação de Gungunhana em que estava incluído Godije, um dos seus filhos. Desta vez traziam 63 cabeças de gado, 510 libras, duas pontas de elefante e até mesmo 10 mulheres de Matibejana. Mouzinho responde que a sua coluna está cansada e que não avançará, esperando que o régulo venha ter ao acampamento. Mouzinho não tenciona cumprir isto.

A alvorada do dia seguinte é as 3h e a marcha as 4h!. Surgem então 3 mangas Vátuas a correr para a coluna, não atacando, mas com intenção de prestar vassalagem, e informam também que Gungunhana está em Chaimite. Era uma aldeia sagrada, com 30 palhotas, rodeadas por uma paliçada de Metro e meio. Gungunhana tinha lá ido para realizar rituais que lhe conferissem protecção divina.

São 6h e 30 da manha. É avistada a paliçada de Chaimite. A marcha foi tão extenuante que duas praças caem no chão, sendo deixados aos cuidados dos auxiliares.

A única entrada em Chaimite era uma porta com cerca de 40cm de largo, e só passava um homem de cada vez. Não havia conhecimento do que esperava os portugueses dentro da povoação.

É então que, o Capitão de Lanceiros I, Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque ordena que os auxiliares formarem cerco em volta da povoação e apenas com Portugueses, desembainha a espada e lança-se à carga à frente da coluna em direcção á porta da aldeia. Diz-se que o Tenente Costa e Couto lhe passa a frente e que, ao chegar a paliçada, derruba a porta, coloca-se em sentido e deixa que seja Mouzinho de Albuquerque o primeiro a entrar, foi seguido do Tenente Couto, o médico Amaral, Sanches de Miranda e do interprete indígena João Massablano. Dentro da Paliçada estava um grupo de Vátuas armados com espingardas e, nas palavras de Mouzinho: "ou fosse porque já de todo tinham perdido a força moral, ou por verem logo atrás de nós a testa da coluna que derrubara as estacas laterais da entrada, é certo que nenhum fez fogo, deitando todos a fugir sumindo-se nas palhotas".
3 - Captura de Gungunhana;


No seguimento, dá-se a mítica cena, Mouzinho intimida o "leão de Gaza" a sair da palhota, sob ameaça de lhe pegar fogo. quando o Senhor sai sozinho e desarmado, Mouzinho manda que lhe atem as mãos. É declarado ex-régulo dos Mangúnis e obriga-o a sentar-se no chão, embora o régulo não quisesse por "estar sujo".

Em aplauso, os Vátuas batem com as azagaias nos escudos. Terminava assim o Reino de Gaza.
No retorno, a bordo da capelo no dia seguinte, nas margens em Languéne, auxiliares juntam-se para prestar vivas á Família Real, à Armada e ao Exercito!

O final dos "dois gigantes" foi dissemelhante. Gungunhana é levado para Lisboa e depois vive o resto da sua vida, com Matibejana e os seus filhos na Ilha Terceira, onde tinha liberdade de movimentos. Recebeu o nome de baptismo Reinaldo de Frederico Gungunhana. Morre em 1906 em Janeiro por causas naturais. Por seu lado Mouzinho regressa a Lisboa onde continua a sua vida, recebe comendações do seu Rei e amigo, D. Carlos. É mesmo escolhido como tutor do príncipe Filipe. Morre em 1902, num suposto suicídio, embora nunca se tenha feito a autopsia devida.

É-me incompreensível como nas escolas se estuda tão a fundo as conquistas dos nossos primeiros Reis, e tão pouco as conquistas dos nossos últimos Reis, que, embora estivessem fora do espaço Europeu, adquiriram estatuto de território Português!

Numa opinião pessoal, Vivam aqueles que, por amor à pátria, arriscaram as suas vidas, oficiais e praças incluídos, civis que os apoiaram e viva o espírito que fez com que, em finais do sec. XIX Portugal se erguesse de novo aos olhos das outras nações depois de ter perdido estatuto após a entrada dos Ingleses e Holandeses na "descoberta do mundo".


sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Campanhas de Pacificação VI

( Batalha de Coolela);


A chama da Vitória;


Em Agosto, António Ennes dá ordem para avançar para Manjacase, mas durante algum tempo tudo o que se faz são algumas expedições que visam "limpar" a área em redor. Cria-se um "enclave" de 10km por 25 no território de Gaza na margem direita do Chicomo. mas não era este o desafio da coluna norte. O seu objectivo era atingir o centro do poder Vátua

Gungunhana joga pela defensiva, enviando aos postos emissários com promessas de capturar os rebeldes para os entregar aos portugueses, mas acrescenta que não acha possível fazê-lo. da mesma maneira, são enviados a Durban e ao Cabo emissários a pedir protecção da coroa inglesa, mas a resposta é sempre negativa.

Outubro contempla uma tropa imóvel. dá-se uma troca intensa de telegramas. António Ennes é claro nas suas mensagens. Quer um ataque imediato, mas o Coronel Eduardo Galhardo recusa por falta de bois e carros capazes de percorrer a distancia até Manjacase. Devido á estagnação da área e das doenças, o numero de doentes, na coluna aumenta, indo de uma centena a 300 em finais de Outubro. Em Setembro 50% da coluna é dada como doente. A 28 de Setembro é inaugurado o forte de Chicomo.

A hesitação do Coronel Galhardo é quebrada a 4 de Novembro, com a aproximação da época das chuvas. Neste ponto a força consiste em cerca de 600 europeus e umas centenas de auxiliares. Muitos outros desertaram. O corredor até Manjacase 2 é curto mas com percalços e extremamente fatigante. os acampamentos são formados longe dos povoados e em zonas com campo de tiro desimpedido.

A 6 de Novembro o ultimo acampamento é erguido nas margens da lagoa de Coolela. Coolela fica a poucos quilómetros de Manjacase 2, a coluna manteve-se por Coolela devido à má qualidade das atrelagens.

Na madrugada do dia 7 de Novembro a coluna desperta pelas 4h, como de costume distribui-se café e rancho frio. mantém-se a formação em quadro durante uma hora. Por volta das 5h o Coronel Galhardo ordena que se forme a coluna para recomeçar o avanço. com as peças engatadas e a cavalaria e auxiliares na frente esta tudo pronto para partir, quando a 250m se avistam, a avançar em passo rápido as mangas inimigas que surpreendem os Portugueses.

As peças são então desengatadas a pressa e colocadas no quadro que felizmente ainda estava formado. As forças inimigas provêm do centro do poder Vátua e são comandadas por Mahougné e os chefes de mangas eram dois filhos do Gungunhana e um tio. Não se consegue avaliar ao certo a força inimiga, mas os números vão dos 8.000 a 20.000 e pelo menos 3.000 estavam armados. A relação de forças seria de 1 para 20. felizmente o quadro português não foi totalmente desfeito.

Os rebeldes encetam um ataque clássico, massivo em frentes (frente, esquerda e retaguarda) com mangas compactas que são seguidas por grupos de atiradores. Os auxiliares em pânico tentam entrar para dentro do quadro, mas são repelidos a coronhada. a primeira face a sofrer o ataque é a frontal, e abre fogo à ordem do Coronel Galhardo. Os oficiais percorrem as faces do quadro de modo a regularizar as descargas que começaram por ser precipitadas. Aqui o Coronel demonstra a sua coragem física, ao dar ordens calmas, em cima do seu cavalo, com um charuto no canto da boca. Depois de algum tempo é ordenado um cessar fogo para que o fumo se dissipe. os Vátuas, achando isto uma hesitação fazem com que as duas mangas mais próximas ataquem com força contra a face esquerda numa investida, aparentemente suicida.

António Machado afirma que, os atacantes tombavam a cerca de 30 a 40 metro do arame. Há uma grande eficácia na artilharia. No segundo cessar fogo já as mangas tinham recuado consideravelmente. A retirada dá-se depois de uma insistência de descarga, e a retirada converte-se em fuga. Os auxiliares que se tinham mantido deitados no chão fora do quadro partem em perseguição e regressam com varias armas abandonadas.

O ataque durou cerca de 40min, foram gastos 6775 cartuchos, 45 granadas de artilharia de montanha e 46 para as peças Gruson.
Os portugueses sofrem 5 mortos e 24 feridos e mais de 9 auxiliares feridos. As baixas do inimigo são avaliadas entre 600 a 1500 soldados.

Após esta derrota, Gungunhana mete-se numa carroça e foge de Manjacase 2 que é abandonada sem defesa. Infelizmente,o Coronel Galhardo retoma as hesitações e manda manter o quadro durante o resto do dia e envia uma pequena força para Chicomo para trazer víveres. esta força é liderada por Mouzinho de Albuquerque que consegue evitar que esta pequena missão fosse um risco inútil. Mas, apesar da rapidez com que cumpriram já se registavam doentes no quadro.

Quatro dias após o combate, O Coronel Galhardo decide recomeçar o avanço. No dia 11 de Novembro encontram-se a 2km de Manjacase. O comboio dos feridos é deixado na margem esquerda do rio Manguanhana, o restante da força avança sobre Manjacase. antes da infantaria investir procede-se a um bombardeamento. Não encontram resistência. No final da tarde, Manjacase é um mar de chamas.

O que fazer agora? Era hora de "depor" o rei Rebelde.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Campanhas de Pacifcação V

Coluna Norte num pára arranca;

A segunda expedição, enviada da Metrópole, liderada pelo coronel Eduardo Galhardo começa a chegar a Lourenço Marques a 13 de Abril no vapor "Portugal". No dia 29 de Maio chega no vapor "Ambaca" o 2º Batalhão de Caçadores 3 que se junta as unidades de engenharia já aí presentes. Metade desembarca na cidade a outra é transportada para Inhambane no mesmo navio.
o Ultimo contingente é formado pelo esquadrão de Lanceiros I dirigido por Mouzinho de Albuquerque.
1 - Coronel Eduardo Galhardo;


Eduardo Galhardo foi nomeado por António Ennes comandante da brigada principal da força por ser o militar de maior graduação em Moçambique. Andava sempre impecavelmente fardado e o seu aspecto físico era impressionante, mas era sobretudo hesitante, não querendo correr riscos que fossem de alguma maneira contra os regulamentos e não era do tipo de pessoa de grandes improvisos. Infelizmente tudo servia de pretexto para atrasar o avanço da coluna, que possuía o maior contingente das campanhas de pacificação e prometia bastante e o preço que pagaram pela má liderança foi pesado.

2 - Desfile das tropas na praça sete de Março;

Em fins de Junho a maior parte do Batalhão de Caçadores 3 está no primeiro posto a caminho de Chicomo, Cumbana. São notórias, logo a chegada, as condições sanitárias. Chegam a registar-se 93 doentes a 23 de Junho. a 11 de Julho são dadas as ordens de marcha para Inharrime, ultimo posto antes de chegar a Chicomo, e a 15 de Julho instala-se a companhia de infantaria em Chicomo a algumas dezenas de kms da capital de Gungunhana.

O grosso das forças é levado para Chicomo por Galhardo a 20 de Julho. Existia, e isso notou-se na marcha para Chicomo, uma grande deficiência no apoio logístico. Os carros de Bois tradicionais atolavam-se frequentemente e estes eram por si, insuficientes, e dá-se mesmo uma falta de animais de carga para todo o aparato. Galhardo nota-o e insiste em pedir mais carros e mais animais e António Ennes faz o que pode, mas não consegue atingir o previsto pelos regulamentos. por causa desta insistência que se torna numa teima entre Galhardo e Ennes a coluna passa 3 meses em Chicomo. A ordem para avançar sobre Manjacase é dada em Agosto e só em Novembro é que avança.

Durante o tempo que a coluna passa parada vai sofrendo inúmeras baixas devido a pestilência do local, e há uma redução espantosa dos efectivos prontos para combater, que provavelmente, nem os indígenas podiam infligir.


Campanhas de Pacificaçao IV


Limpopo, as operações do centro;




Com o objectivo de consolidar as vitorias da coluna sul, é enviada, para o rio Limpopo, uma pequena flotilha fluvial e começam com a exploração do vapor "Ferreira Neves" em Junho de 1895. Em Setembro a lancha canhoneira "Capelo" é rebocada e recebe o armamento quando passa pela barra. Estas duas embarcações são apoiadas por outras duas, a "Fox" e "Carnarvon", que fazem ligação a Lourenço Marques. É assim composta a "esquadrilha do Limpopo"!



A 4 de Outubro a "Neves Ferreira" e a "Capelo" sobem o rio até Languéne onde o comandante Sá (da Neves Ferreira) convoca uma reunião do chefes e indunas da região. Aqui é apresentado um Ultimato. Em oito dias deveriam entregar os rebeldes Matijebana e Mahazul e submeter-se ao domínio português. Esta mesma mensagem é espalhada pelo comandante da Capelo em povoações da margem esquerda do Limpopo. O prazo passa, e após um reabastecimento em Xai - Xai os navios começam a retaliar em margens diferentes do rio, de Languéne para cima, 30 km, até onde era navegável.

O castigo consistia em "martelar" com metralhadoras as povoações ribeirinhas, após a qual se daria ao desembarque de parte da guarnição que incendeia as casas abandonadas. não havia tempo para concentrar forças e a resistência revelou-se fraca. a maioria dos raids restringiam-se á margem. a "Capelo" viu-se dificultada pelo caudal reduzido do rio que fazia com que encalhasse frequentemente.



É posto em terra, a 18 de Outubro, um destacamento com 36 praças, que abre o caminho até à povoação da irmã de Gungnhana, que foi incendiada e abandonada. em poucos dias incendiaram-se cerca de 120 populações e afundadas embarcações indígena.
- Lancha Canhoneira "Capelo";



Não se trata tanto de uma desculpa, mas de uma explicação, que o comissario régio dá para tais acontecimentos:
"Em qualquer país civilizado actos de guerra como estes praticados pela esquadrilha do Limpopo, alem de serem condenados pelos princípios humanitários e parecerem repugnantes a brios cavaleirosos, provocariam reacções violentas, reacções de ódio e vingança dos povos castigados pelas culpas do soberano; em África porem, não se manifestam tais reacções, porque só podem produzi-las noções elevadas de moral e sentimentos de justiça e de pundonor que falecem aos negros. as populações do Limpopo não se apertam em volta de Gungunhana para se vingarem com ele, nem sequer para lhe pedirem vingança; tratam de abandona-lo, desde que o reconheceram impotente para as defender" - António Ennes;

Esta afirmação não dever ser olhada com desdém, pois constitui uma visão da época. este torna-se o grande problema do Historiador e basicamente de qualquer outro estudioso e publico em geral, analisar as coisas pela ponto de vista das noções ocidentais do séc. XXI, tal como também faziam os ocidentais do século passado e dos séculos anteriores. Para mim é a analogia do "mundo selvagem". Quando um observador de vida animal vai para o campo, vai na condição de não interferir, pois não podemos mudar o rumo natural das coisas que acontecem na selva, ou na floresta porque temos pena de um pintainho que vai ser morto para alimentar uma raposa ou um Gnu que vai servir de alimento para um grupo de Hienas. o mesmo se deve fazer na historiografia. qualquer acto cometido no passado não deve ser julgado, mas avaliado e inserido num contexto. Por isso podem-me chamar insensível em não querer descrever o horror que sentiram as populações do Limpopo, mas a verdade é que não se trata de fazer uma historia do sentimento, mas uma historia da mentalidade e de acontecimentos. Neste caso o pintainho são os indígenas, a raposa é o império português, que fortalece a sua imagem aos olhos da Europa do séc. XIX.

Continuando e para finalizar, a 22 de Outubro já se vê o efeito das punitivas. uma serie de chefes da região apresentam-se nas margens do rio, acompanhados pela sua gente, desarmada, com intenção de abandonar Gungunhana e aceitar a soberania portuguesa. Só pedem que os portugueses os protejam de eventuais punições de Gungunhada pela troca de lados. dá-se uma pequena resistência na Ilha verde, mas no resto do Limpopo outros chefes seguirão o exemplo dos primeiros.
No dia 27 de Outubro surgem algumas forças de Gungunhana para manter a antiga vassalagem, mas são repelidas pelo fogo da Capelo. Este evento torna-se na mostra definitiva para os chefes da garantia de segurança por parte das forças portuguesas.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Campanhas de Pacificaçao III


A coluna Sul - Magul, o tira teimas;

23 de Agosto de 1895, António Ennes informa que as negociações com Gungunhana serão cortadas!
Sao dadas autorizações para perseguir rebeldes nas terras do Cossine. A ponte sobre o Xinavane é completada. Freire de Andrade manda aos régulos reunirem junto ao rio, a 30 de Agosto as suas «guerras» (termo para os combatentes negros). As ordens são cumpridas e na data marcada la estão 5 régulos fiéis com cerca de 2000 a 3000 auxiliares distribuídos por várias mangas. Começam a desertar assim que tomam conhecimento da intenção de entrar em terras de gungunhana. no dia 3 de Setembro já só restavam perto de 1000 auxiliares mais um numero reduzido de tropas europeias. a coluna começa a dirigir-se para o incoluane, e durante a marcha a cavalaria, com o seu passo mais firme acaba por marcar passo e toma a dianteira com a infantaria a retaguarda. são percorridos 18km em 2h numa rota para Magul. a certa altura a coluna depara-se com algumas mangas por entre as árvores, Paiva Couceiro tenta um ataque repentino mas os auxiliares estacam a alguma distancia, Paiva Couceiro é então obrigado a lançar uma mensagem em vez de um ataque: exige que lhe seja entregue, em três dias o rebelde Matibejana ou dar-se ia um ataque português. é seguro dizer que após este episódio não se voltou a fiar muito nos auxiliares indígenas.

Quando chegam os reforços, a coluna que se dirigia para Magude era constituída de 275 europeus e 32 angolanos, os materiais de apoio eram claramente insuficientes, mas não acatar o prometido no ultimato era mostrar sinais de fraqueza, por isso decide-se avançar de qualquer maneira. As mangas estavam agora concentradas em Magul, por isso os auxiliares deveriam atacar as terras a sul que tinham ficado desguarnecidas.











1 - Paiva Couceiro;



Depois de uma marcha que foi de Xanavane até Magul, no dia 8 de Setembro cavaleiros da guarda avançada detectam num arvoredo, na base de umas suaves colinas, várias mangas armadas e as 10h e 30m da manha é soado o alerta para formar o quadro defensivo. as mangas encontram-se a cerca de 2km, e estão separadas do terreno do quadro por um regato, fora de alcance de tiro.

O quadro foi encurtado para 17 atiradores de comprimento, com as metralhadoras Nordenfeldt nos ângulos do quadro.

Da-se uma longa espera por parte dos dois lados, e as mangas dos Ímpis não mostravam sinais de querer avançar. deveriam estar a espera que os europeus entrassem arvoredo dentro para perderem linha mira e entrarem num combate corpo a corpo. a espera continua debaixo de um sol escaldante.
Freire de Andrade ordena que uma linha de atiradores angolanos avance para as mangas até ter alcance de tiro e despejar algumas salvas no inimigo de modo a o provocar a sair do mato. E resulta!. da-se movimento por parte do inimigo mas continua sem atacar. flanqueiam o quadrado de modo a bloquear a retirada. entretanto são contadas as mangas, são 13, ou seja, cerca de 6000 a 9000 guerreiros. não nos podemos esquecer que as mangas Zulus que atacaram e massacraram os ingleses na África do sul (Isandlwana) eram de 10.000 para uma coluna britânica de 8.000 homens.
em Magul estão cerca de 20 a 30 rebeldes para 1 português.
As mangas aguardam.
No tempo de espera, alguns homens cortam ramos de arvores proximas e coloca-los em volta das faces do quadro. a situaçao extenua os elementos do quadro que sofrem debaixo do sol forte, sem possibilidade de uma retirada minimamente segura, e começam a dar-se alguns desfalecimentos. os oficiais começam a preocupar-se pois estão isolados, não podem receber abastecimento de comida nem agua e havia sempre a hipótese de um ataque nocturno, ao qual, de certo o quadro sucumbiria.
Finalmente, depois de duas horas, por volta da uma e vinte da tarde, as mangas atacam. começam por pequenos grupos de atiradores que vão avançando de gatas, escondidos pelo capim e pelas ondulações do terreno.
As Nordenfeldt são as primeiras a disparar e passado um tempo curto, ouvem-se o som forte das Kropatschek feitas ás ordens dos oficiais. Ordena-se duas vezes o cessar fogo, pois o fumo das descargas era Tao que não se via o inimigo a avançar. reservas vão preenchendo as baixas nas faces, enquanto praças angolanos disparam deitados no chão fora do quadro. na segunda vez que se cessa fogo o inimigo esta a cerca de 100m, e no mesmo momento uma das metralhadoras encrava e alguns guerreiros mais ousados aproximam-se perigosamente perto. Freire de Andrade chama-lhe "O momento critico da situação". Por sorte a cadencia de disparos das espingardas aumenta e a onda atacante hesita e acaba por recuar. a retirada é encoberta pelo fumo. São, na altura da retirada das e vinte da tarde, o quadro mantém-se imóvel, mas os praças angolanos que estavam deitados iniciam uma perseguição, da qual resulta a morte do filho do régulo Magioli.

Paiva Couceiro é atingido no inicio do combate, mas mantém-se no activo durante o confronto.

Depois de acalmar, a preocupação era fazer a força portuguesa chegar a Xinavane, que seria alcançado á uma da manha do dia 9 de Setembro. No preciso momento em que se vence o combate, os vencedores retiram-se. A coluna estava desmoralizada e exausta. contudo, por volta de 20 de Setembro, régulos (incluindo o régulo de Cossine) foram "prestar vassalagem" ao posto de Magude. outros régulos seguem-se vindos de áreas que se estendem ate ao Limpopo. enquanto que ate aqui os régulos destas terras se mostravam indecisos, a vitoria em Magul levou-os a penderem para o lado português.

A coluna sul tinha então cumprido a sua missão. Derrotaram os vassalos de Gungunhana nas terras do sul. a dinâmica com se operaram estas campanhas a sul contrastam com o estaticismo da coluna norte, liderada por Eduardo Galhardo.

(Continua)

domingo, 19 de outubro de 2008

Campanha de Pacificaçao II

Gaza: Preparativos;


Com Marracuene tomada, pode-se dizer que a pacificação estava praticamente feita. António Ennes pode agora focar-se na sua missão principal, a campanha contra Gungunhana. Ennes mostra uma certa duvida se alguma vez irá conseguir a submissão do rei de Gaza. ainda em 1894 parecia que os portugueses eram incapazes de defender Lourenço Marques. agora era lançada uma ofensiva contra o então (supostamente) maior poder nativo Africano, cujo o contingente seria de 60.000 guerreiros. o Kraal real, onde se localizava Gungunhana era Manjacaze II (existia outro Kraal com o mesmo nome). Foram delimitados 3 possíveis caminhos até Manjacaze, todos servidos por braços de agua (mas nenhum era totalmente navegável).

1º caminho: de Lourenço Marques (era o mais longo) estirava-se para Norte servindo-se do rio Incomati.
2º caminho: saía de Xai - Xai (zona perto do Limpopo) seguiria o rio para Noroeste.
3º Caminho: Parte de Inhambane, aproveita-se do caudal o inharrime, chicongo- ongo e Chicomo.

O caminho mais curto seria pelo Limpopo, mas não era aconselhável, era uma área desconhecida e provavelmente não navegável. Mantiveram-se as duas outras rotas, denominadas Norte, a que seguia Inhambane, e sul a que partida de Lourenço Marques.

A estes dois percursos foram designadas duas colunas, a principal do Norte, e a secundária que sairia de Lourenço Marques. Concentrou-se o grosso das forças no norte pois era a rota que melhor permitia uma incursão directa a Gaza. a coluna sul iria perseguir os rebeldes que tentassem apoiar o rei em Intimane\ Cossine e consolidar uma força nessa zona.
Pelo sim pelo não, uma pequena esquadrilha é destacada para o Limpopo para assegurar cooperação das populações ao longo do rio.

Não existia nos inícios de 95 um objectivo claro quanto á função da campanha de Gaza, se possível deveriam atacar Manjacaze e terminar com o poder Vátua, mas existiam duvidas quanto ao tempo que isso levaria, por isso deveria-se ficar somente por um controlo dos régulos rebeldes. para isso seria constituída uma rede de postos militares ao longo dos troços dos rios. Mesmo Mouzinho de Albuquerque considerava que tudo o que se podia fazer era rodear o reino de Gaza.
A 31 de Maio de 1895 é criada oficialmente a coluna Sul e depois de alguns preparativos, em Agosto estavam já erguidas as pontes de acesso ao território Cossa que atravessavam o Incomati.

(Continua)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Personagens



O Herói de África;


Bem sei, que em toda a historia do nosso país as personagens que deveriam ser lembradas são mais do que as que a nossa capacidade no geral suporta. Mas se todos pensasse-mos assim não haveria escola. pois ninguém seria capaz de decorar todas as disciplinas que se ensinam. Mas seria de esperar que, junto com as "más" historias de portugal se contasse também as "boas" historias. refiro-me a feitos positivos, realizados por personagens de remonta. Não digo que não se ensinem os triunfos da nação, mas a ideia com que os alunos ficam da historia de portugal é de governantes inconscientes que não se interessam pelas condições em que vive o seu povo... e os que se interessam acabam por "meter o pé na argola" por assim dizer. Deveriam ser "cantados", para utilizar os termos poéticos, as personagens e seus feitos, pois ja quando eu fiz o meu ensino basico e secundario, nem vestigios orais destas personagens surgiam nas salas de aula. Nesta sequência de pensamento vou falar de uma personagem que me cativou acima de muitos outros. E por muitos aspectos, pela sua personalidade, pelo seu carácter, pelas suas condutas, pelos seus feitos, e pela sua dignidade aquando do seu regresso em que se falava de um envolvimento seu com a rainha.


Vou fazer uma breve apresentação ao Major Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque. Aqueles que ainda o estudaram poderão estar agora a fazer mentalmente associações a nomes como "Chaimite", "O leão de Gaza", "Campanha de pacificação" ...

O grande Mouzinho de Albuquerque nasce a 12 de Novembro de 1855, no concelho da Batalha, na freguesia de santa Maria da vitoria. Infelizmente, nem um artigo de um blogue deve ser tão grande, nem a mim me cabe fazer uma biografia detalhada deste soldado Português, pelo que vou referir os passos importantes que deu na sua vida. Aos 16 é já praça no regimento de cavalaria 1. Frequenta a escola politécnica e a escola do exercito e segue o curso de cavalaria. em 1876 envereda pelos reg. de cavalaria 2 e 4 onde é promovido a alferes em 76 e em 84 a tenente. Com 24 anos vai para a Universidade de Coimbra. o seu carácter e sentido de obrigação impelia-o a assistir as aulas sempre fardado. devido a uma doença e um acidente é impossibilitado de prosseguir o estudo, enquanto esta imobilizado lê sobre a índia, Brasil e África. tão importante como Mouzinho é a senhora com que casa, D. Maria José de Albuquerque Mascarenhas de Mendonça Gaivão, que se tornou na sua confidente.

Uma pequena nota: sou capaz de garantir que, 99% das pessoas abaixo dos 20 anos nao sabe quem foi, ou o que fez este Heroi, contudo, se pensar-mos bem, depois de Mouzinho morrer em 1902, quem mais figura como grande Heroi da naçao? existe um certo desvanecer de personagens aclamadas nacionalmente apartir do seculo XX, e procurando em livros nao é muito dificil de descobrir um rol destes que tanta esperança e uniao deram aos portugueses no inicio do seculo. podem-se referir alguns elementos das guerras coloniais dos anos 60 e 70, mas nunca com uma envergadura de importancia como a que (pelo menos deveria) foi atribuida a mouzinho.

Aos 31 Mouzinho é enviado. ja capitão, para a índia, como fiscal das linhas de ferro. a 10 de Junho de 1890 deixa a Índia para seguir para Moçambique, para onde ja sonhava ir desde que chegara à Índia, e talvez já antes.

A partir deste momento sou obrigado a enquadrar a realidade do Moçambique do século XIX. As fronteiras estabeleceram-se com base em 2 tratados assinados com os Britânicos (1815 - 1817), os limites costeiros consistiam-se por, a norte o Cabo Delgado e a Sul o porto de Lourenço Marques. como não podia deixar de ser, os ingleses tinham que vir "meter o bedelho" nos seus "mais velhos" aliados, e utilizando uma expedição como disfarce, enviaram um oficial de marinha negociar com alguns régulos (tribos que se assumiam como, ás ordens d'El rei Português) concessões á coroa Britânica, desrespeitando obviamente os tratados assinados. desta maneira, Portugal perde as ilhas Inhaca e dos Elefantes, e com arrogância, la, içam rapidamente a bandeira Britânica. alguma coisa estes teriam que fazer para recuperar da vergonha da expulsão e perda de colónias na América do norte. felizmente nem todo o bom senso estava perdido, e recorrendo ao livre arbítrio, presidido por elementos franceses, portugal recebe votos de ter razão. Moçambique mantém Lourenço Marques. para resumir um pouco a situação, a corrida a África levara a que instabilidades se gerassem nos territórios colonizados e entre os próprios países que tinham pretensões. o que acontece é que, potencias com grandes pretensoes estratégicas cobiçam o excelente porto de Lourenço Marques, e de modo a conseguirem ocupar o território Português, criam insurreições dentro dos régulos para enfraquecer a presença militar portuguesa para fazerem, como fizeram nas guerras peninsulares, e auxiliarem os velhos aliados através de ocupações militares. e então seria Adeus moçambique, como disseram os Holandeses á África do Sul durante as guerras Napoleónicas, igualmente ocupada por Britânicos. Isto de, os territórios de sua Majestade se alargarem por um quarto do globo já vem de há muito.

Foi neste campo que o Major Mouzinho de Albuquerque fez a diferença em Moçambique. a Sua missão foi de terminar com os distúrbios dos régulos e pacificar a zona. Ora, a organização dos indígenas era por reinos, e o mais importante era o reino dos Vátuas, cujo rei era o famoso "Leão de Gaza", o Gungunhana, ou "Ngungunyane". o seu império possuía mais de milhão e meio de pessoas, e, descendentes dos Zulus sul Africanos, guerreiros aguerridos. Gungunhana constantemente desrespeitava a autoridade portuguesa e não prestava honra as relações que seu pai, Muzila, retinha com a coroa Portuguesa. pelos vistos, para compensar mantinha boas relações com comerciantes e conselheiros Alemães, e com a própria rainha Victoria. um episódio relata bem estas relações, quando um vapor inglês subia o Limpopo carregado de armas para armar os Vátuas, quando, a bordo do Mc Mahon , Mouzinho aprisiona a embarcação inglesa. como administrador de Lourenço Marques, Mouzinho fez seu objectivo capturar Gungunhana, achando, e bem, que poderia assim tomar "as rédeas" nesta zona de Moçambique.

Na segunda parte deste artigo falarei das campanhas de pacificação em Moçambique nas quais Mouzinho acaba por participar e encerrar, terminando com as rebelias dos régulos que durou até meados nos anos 60 do século XX, para desapontamento de Mouzinho caso este fosse vivo.